
SETE ANOS DEPOIS: O QUE MUDOU EM HUMAITÁ? Uma análise da Carta de 2019 revela avanços na educação ambiental, mas também promessas incompletas e gargalos históricos.

Marcelo Pebles Gomes Pinto
Este texto apresenta uma reflexão crítica sobre os sete anos transcorridos desde a assinatura da Carta de Humaitá, em 2019, examinando avanços, limitações e desafios ainda presentes no município. A análise parte da ideia de que desenvolvimento ambiental, social e econômico precisam caminhar juntos, especialmente em um território amazônico marcado por forte pressão sobre os recursos naturais e carências históricas de infraestrutura. Destaco os progressos na educação ambiental, na qualificação dos recursos humanos e na mobilização institucional, mas também aponto obstáculos relacionados à energia, à industrialização, à geração de emprego e renda, à falta da presença dos órgãos ambientais e à governança dos recursos naturais. Defendo que Humaitá possui potencial para melhorar seus indicadores de desenvolvimento humano, porém isso dependerá de maior integração entre União, Estado, município, universidades, comunidades e setores produtivos e iniciativa privada, com planejamento, diálogo territorial e políticas capazes de conciliar conservação ambiental, segurança jurídica e desenvolvimento econômico.

Sete anos depois da assinatura da Carta de Humaitá, considero que houve avanços, mas eles foram muito mais fortes na educação ambiental, mobilização social e articulação entre instituições do que na infraestrutura necessária para transformar de forma permanente a realidade ambiental e econômica do município. A Carta já defendia ações como coleta seletiva, organização de catadores, gestão de resíduos, educação ambiental, participação social e melhoria do desenvolvimento humano. Hoje, experiências como o Guardiões de Humaitá e a ECOEDUCAR mostram que parte desse compromisso ganhou força dentro das escolas e ajudou a formar uma geração mais consciente sobre os problemas do território.


Um dos objetivos mais importantes da Carta era justamente contribuir para melhorar o IDHM de Humaitá. O último valor oficial continua sendo 0,605, referente a 2010, mas, em uma projeção técnica não oficial, estimo que o município possa estar hoje próximo de 0,69. Não me surpreenderia se o próximo resultado oficial chegasse a 0,70 ou 0,71. Ainda assim, acredito que poderíamos estar em situação melhor se tivéssemos avançado mais rapidamente em infraestrutura, especialmente na questão energética.
Humaitá vem formando recursos humanos cada vez mais qualificados e tecnologicamente preparados, mas a falta de uma energia estável e integrada ao sistema nacional ainda limita o crescimento da indústria, do comércio e da geração de emprego e renda. Sem essa base, o município tem dificuldade para diversificar sua economia e competir com a força crescente do agronegócio. Para mim, a indústria e o beneficiamento local são caminhos importantes para agregar valor à produção, gerar oportunidades e impedir que a qualificação das pessoas aconteça sem que existam condições para elas permanecerem e se desenvolverem no próprio município.
Também considero fundamental ampliar a presença e a capacidade regional de órgãos como IBAMA, ICMBio, ANA e IPAAM, além de criar COMITÊS DE BACIA DO RIO MADEIRA ou outros espaços permanentes de diálogo e gestão do território. Questões como mineração nos rios, garimpo, uso dos recursos naturais, conservação e geração de renda não podem ser tratadas apenas pela repressão ou pelo conflito. É preciso reunir Estado, municípios, universidades, comunidades, trabalhadores, produtores e órgãos ambientais para discutir onde determinada atividade pode ocorrer, sob quais regras, com fiscalização, concessões, arrecadação e segurança. O Sul do Amazonas precisa de uma contrapartida mais forte do Estado e da União para que desenvolvimento e conservação deixem de ser tratados como caminhos opostos.








